Interdependência

Em tempos não muito distantes, todas as famílias rurais tinham pelo menos um burro ou uma mula. Com a multiplicação de máquinas agrícolas, automóveis e o abandono do campo deixaram de ser necessários. No Algarve, o número de asininos e muares diminuiu mais de 90% nos últimos 30 anos. Beliche, Castro Marim.

In the not so distant past all rural families owned at least a donkey or a mule. These are no longer needed since agricultural machines and cars multiplied and the countryside increasingly deserted. The Algarve’s numbers of asinine and hinnies have dropped by 90% during the past 30 years. Beliche, Castro Marim.

Maria Bárbara encontra uma ovelha morta. Explica que “deve ter comido um bicho que aparece na erva molhada... luca, uma rã pequenina, os animais que a comem morrem”. Uma semana depois, o cenário repete-se. Dois cabritos órfãos começam a ser alimentados com biberão para sobreviverem. Chaminé, Silves.

Maria Bárbara finds a dead sheep. She explains “it must have eaten a bug that lives in wet grass… a luca (a tiny frog), animals die swallowing these”. A week later the scene is repeated. Two orphan goats are being fed by a feeding bottle to survive. Chaminé, Silves.

Animais à solta. Água Velha, Silves.

Animals at large. Água Velha, Silves.

“É um dizer dos antigos: não se deve tirar as teias para não dar dores aos burros”, conta José Teixeira. Vive em Santa Justa, terra onde nasceu há 77 anos. Em pequeno, terminou a 2ª classe e foi guardar porcos. A 3ª fez “à noite, com vinte e tal anos”. Emigrou em 1966 porque “a agricultura não rendia nada, não havia ganhos nenhuns”. Esteve cinco anos em França e quatro na Alemanha. Sentia saudades da família: “Isso é que era custoso!”. Para ter companhia, ia visitar o português mais próximo, que vivia a doze kms: “Ia vê-lo e ele a mim. Não tinha com quem falar. Trabalhava no campo, era muito duro”. Regressou na altura do 25 de Abril: “já não havia contratos no estrangeiro. Começamos a fazer sementeiras. Alugava terra dos outros… courelas, a minha não dava”. Recorda que “os adubos eram caros. Chegavam a Alcoutim nos barcos que levavam o minério e vinham para Martim Longo”.

“It is an ancient saying: don’t remove cob webs not to provoke pain to donkeys”, José Teixeira counts. He lives in Santa Justa, where he was born 77 years ago. He completed the 2nd class and went on to guard pigs. The third he did “at night when I was in my twenties”. In 1966 he emigrated because “agriculture didn’t yield a thing, no profits were to be made”. He was in France for five years and in Germany for four. He missed his family: “That was the hardest thing!” Lacking company he visited the closest Portuguese, twelve km away: “I’d go to see him, he came to see me. I had no-one to talk to. I worked on the land, it was pretty hard”. After the 1974 revolution he returned: “no more contracts abroad. We started sowing. As my land was useless I rented other people’s plots”. He remembers that “fertilizers were expensive. They arrived in Alcoutim on a ship that took away the ore and later were transported to Martim Longo”.

Romão veio pastoreando as suas vacas ao longo dos cinco quilómetros que distam entre a barragem da Carocha e Monte Francisco, onde reside. Castro Marim.

Romão herded his cows along the five kilometres that separate the Carocha dam and Monte Francisco, where he resides. Castro Marim.

Armindo e Bruno, funcionários da Junta de Freguesia de S. Bartolomeu de Messines, levam comida e cuidam de um cão que ficou sozinho desde Outubro de 2016, depois de o dono ter tido um AVC. Silves.

São Bartolomeu de Messines parish clerks Armindo and Bruno feed and care for a dog that has been alone since its owner suffered a cerebrovascular accident, in October 2016. Silves.